segunda-feira, 14 de março de 2011

Quem tem medo da verdade?


fonte: CARTA CAPITAL

Cynara Menezes


Temos diante de nós uma oportunidade de ouro: a de colocar em pratos limpos quem é democrata de fato no País e quem usa a democracia como uma bandeira de conveniência. Durante oito anos, a grande imprensa brasileira cobrou do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva fictícios atentados contra a liberdade de expressão. Acusavam Lula de possuir “anseios autoritários”. Nunca antes na história viram-se jornais tão zelosos do sagrado direito do cidadão de se informar. Mas quem agora, dentre estes baluartes da democracia, será capaz de se posicionar ao lado da presidenta Dilma Rousseff em favor da instalação da Comissão da Verdade, que pretende apurar os crimes cometidos durante a ditadura? Ou isto não é direito à informação?
Dilma tem manifestado a auxiliares seu interesse em proporcionar uma satisfação oficial do Estado a familiares e vítimas da ditadura, como fizeram nossos vizinhos na Argentina, Chile e Uruguai. Faz parte da agenda da ex-guerrilheira, presa e torturada, destacar-se na defesa dos Direitos Humanos. A titular da pasta, ministra Maria do Rosário, declarou, de chegada, ser assunto prioritário do governo a instalação da comissão. Mas foi só a presidenta assumir que sumiram das páginas mais “liberais” de nossa imprensa os artigos dos colunistas fixos em defesa da comissão. Foram suplantados por textos em defesa da… Defesa, o poderoso ministério que abriga os militares das três Forças.
No final do governo Lula, um articulista da nobre página 2 da Folha de S.Paulo, por exemplo, chegou a publicar várias colunas cobrando do presidente mais vigor na investigação do período militar, que tirasse a Comissão da Verdade do papel. Depois que Dilma demonstrou estar decidida a encarar o desafio, nunca mais. O que se vê atualmente são matérias, à guisa de furos de reportagem, ecoando a opinião dos militares mais obtusos da ativa, se não simplesmente já em seus pijamas. Em editoriais, mesmo, nenhum dos nossos grandes e democráticos jornais foi capaz de defender a instalação da comissão.
O Globo, aliás, fez justamente o contrário: espinafrou qualquer possibilidade de se mexer num passado que não lhe foi, afinal, o que poderia se chamar de “período de vacas magras”. Em editoriais, o jornal dos Marinho, sempre tão vigilante na hora de apontar tendências antidemocráticas em Lula, chamou a comissão de “orwelliana” e “encharcada de revanchismo”. Uma verdadeira “CPI da Ditadura” – como se isso não fosse algo a celebrar. O diário carioca fez malabarismos ao aliar o suposto “autoritarismo” de Lula a uma comissão “ao gosto dos regimes stalinistas”. É certo que Stalin reescreveu a verdade a seu bel-prazer. O Globo, porém, parece preferir que ela não seja nem sequer contada.
No início deste ano, a Folha bem que tentou disfarçar sua real opinião sobre o período que alcunhou de “ditabranda”, intercalando artigos de convidados contra e a favor da instalação da comissão. E uma ou outra carta apareceu em seu painel do leitor francamente favorável à investigação do passado. Mas a posição oficial do jornal é de editorial publicado em 31 de dezembro de 2009. Os crimes da ditadura, assegurava a Folha, “foram cometidos pelos dois lados em conflito”. Revisar a Lei da Anistia, nem pensar, publicou no editorial: “Não há nenhuma vantagem para a democracia em atiçar ressentimentos”. Para concluir: “O passado não deve ser esquecido – mas que não seja entrave e fonte de perturbação para o presente”.
A mim parece no mínimo curioso que órgãos de imprensa tão ciosos da democracia acatem os argumentos dos generais que impingiram ao país – eles sim, não Lula – uma ditadura. O projeto da Comissão da Verdade inclusive contempla a caserna, ao propor também a investigação de possíveis abusos cometidos pelos que lutaram contra o regime militar. Exigência, como se vê, dos militares, aliados aos jornais, e levada a cabo pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, que por fim conseguiu embuti-la no texto levado ao Congresso. Ainda assim, continuam as restrições à comissão, pelos soldados armados e os de papel.
Um observador atento diria que a atitude reticente dos jornais em relação à Comissão da Verdade deixa transparecer um certo temor das investigações. Mas por que a grande imprensa brasileira teria medo da verdade? Acaso seria uma verdade inconveniente? Tempos estranhos estes em que democratas preferem o obscurantismo à luz.
Uma nota: O Estado de S.Paulo fica de fora desta análise apenas porque não encontrei em seu arquivo online e na internet nenhuma opinião do jornal sobre a Comissão da Verdade. Teria optado pelo silêncio?

Nenhum comentário:

Sobre o que já postamos

BOQUIM SERGIPE piso professores GREVE prefeito sintese luta Brasil PISO SALARIAL vereadores Déda Jean câmara Aracaju Lagarto Pedrinhas STF 2012 2014 Alencar Amigos BLOCO CARREIRA DEPUTADOS LAGOA VERMELHA MP PNE PRE-CAJU Tribunal de Contas chile ditadura enterro escolas governo magistério mec micareta prefeitura prova 12 de junho 141anos 150 dias 1567 2010 2016 ADI AZAR Abelardo Romero Dantas Alô Associação BANDA LARGA BODE Bahia CAE CANDIDATO CLT CNBB Carmem Miranda Ciarlos Conae Copa do mundo Creches DIA DO BEIJO ESTADUAL EUA Edivaldo Educação Estado Estância FESTA FIFA HINO IBGE INTERNET Iluminação Interior José José Comblin LAN HOUSE Lula MARCELO DEDA MDE MICARETA 2012 México Natal OAB Obama PAREDÕES PRAÇA RCB RESISTÊNCIA SE SEXTA FEIRA 13 TV Tabaroinha Taxa UFS Zé Carioca acidente adefib ai se eu soubesse aliança angra 1 angra 2 aniversário anos arcaju argentina.brasil assembleia. assim você me mata atomicas atrasado aulas bardosa batismos campanha censura cidadania cidade concursado contratados copertalse cravo dança das cadeiras dem denúncia dia dos namorados direitos edil energia escravos esquerda estudantes expressão fhs floro frei betto fundação hospitalar de saúde globo golpe militar hegemonia humanos iran japão jovem jovens joão junho kw/h lei liberdade libertação livro líder manifestações merenda merendeira micareta 2011 morte médicos mídia nacional notas novela nucleares oposição pacientes padre pascoa pedro barbosa polícia militar política prefeitos presidente pt páscoa quaresma reforma republica riachão rojões santana sbt secretaria segurança pública sindipema smecelt tabela tarifas teologia da libertação trânsito universitários usinas verdade vereador vice violencia voto